| ieve di Tesino, como chamavam-na no século passado, era um vilarejo da província de Trento, situado numa altitude em torno de 800 m., nas encostas do Cimon Rava, considerada uma grande montanha entre as muitas que compõem os pré-Alpes italianos, cujo pico alcança 2434 metros. Cortando seu território está o Grigno que, nascendo nos lagos gelados de Costa Brunella e Cima d’Asta, a mais de dois mil metros, corre célere, transparente e crespado em seu leito estreito e pedregoso. A seu redor, cresce uma vegetação rica, circundada por bosques de pinheiros e castanheiros. Mais acima, espalham-se pela paisagem alpina imensos prados, onde os camponeses tinham o hábito de fazer pastar, durante as estações amenas, o gado bovino que lhe servia. Daí que a transumância tornara-se uma atividade permanente daquelas paragens idílicas. A posição geográfica de Pieve, se por um lado lhe dava esse cenário de beleza e tranqüilidade, de outro, a tornara isolada e circunspecta em relação ao restante das povoações do Vale Sugana.
iuseppe Poli, que se chamava também Antonio, deve ter experimentado bem, quando ainda criança e adolescente, a vida e os divertimentos campestres que lhe oferecia o ambiente natural. Seus pais tinham origens camponesas. Giacomo, o pai, era natural de Conco, no planalto dos "Sette Comuni", na província de Vicenza, região agrícola e pastoril, de colonização germânica. Antonia Rossi, a mãe, era de Asiago, lugarejo que fica bem no centro do planalto, em cuja região se produz o famoso queijo homônimo. Casaram-se em meados da década de 1860, provavelmente nesse mesmo vilarejo. Entretanto, a vida da família foi marcada por uma verdadeira peregrinação que começou no torrão natal e terminaria em Vicenza, somente no final da primeira década deste século.
ogo no início do casamento o casal POLI se transferiu para Schiavon, uma minúscula aldeia da província de Vicenza. Ali, nascem dois filhos: Giovanni Maria (1866); e Sabina (1869). A família, contudo, permanece em Schiavon somente até o início da década de 1870, depois muda-se para Pieve Tesino. Nesse local, nasceram outros quatro filhos: Giuseppe Antonio, futuro protagonista da travessia do Atlântico, aos 27 de agosto de 1872; Giuseppe Baldessar (1875); Cesare Giacomo (1878); e Maria Maddalena (1880).
erca de dez anos depois, transpondo as barreiras naturais que os separavam das outras regiões vênetas, eis que a família POLI atravessa os umbrais da industrial Schio. Era 27 de maio de 1881, em plena primavera. Outra vez, repetia-se a interminável história: um grupo de trabalhadores rurais se transformava em classe proletária. Buscavam Schio para vender seu trabalho às tecelagens e indústrias locais, em troca de um mísero salário. A passagem não foi fácil: depois de muito procurar, encontraram na Via Porta di Sotto, a área de forte concentração operária da cidade, um lugar para morar. Enquanto estiveram em Schio, mudaram outra vez de casa, mas nunca mais saíram dessa rua. Ali, morreria o irmão mais velho, Giovanni Maria, com 19 anos, em agosto de 1885. Era solteiro, trabalhava e morava ainda com o restante da família. Enterrado, tornava-se um a menos a ajudar na manutenção da família. Nessa casa, nasceria a última filha do casal: Catterina, no dia 13 de setembro de 1888, que veio a falecer dois dias depois. Outra tragédia: três dias mais tarde, no mesmo local, faleceria também a mãe, Antonia, aos 45 anos, provavelmente por complicações de parto, o que era muito comum entre as famílias de trabalhadores.
e o pai transformara-se, por necessidade, em operário têxtil, é muito provável que Giuseppe Antonio também o fizera. Com isso, sofreu todas as agruras das lutas que, no início da década de 90, estabeleceram-se entre os interesses do trabalho, de um lado, e do Capital, de outro. Sem muita escolha, o jovem operário resolveu emigrar.
ão havia completado 19 anos e ainda solteiro quando rumou para São Paulo. Viajou a bordo do vapor ‘Attività’ e, diversamente dos anteriores, desembarcou no porto de Santos, no dia 28 de agosto de 1891. Deve ter dito na Hospedaria que era mais velho, pois foi aí registrado como se tivesse a idade de 21 anos. Permaneceu no Brás, onde se casou, teve filhos e, provavelmente, trabalhou como operário. Aí reconstituiu sua vida.
perniciosa gastrinterite iria ceifar também um descendente dos imigrantes de Schio. Giuseppe Antonio Poli enterraria, no Cemitério do Brás, uma de suas crianças, cujo falecimento havia ocorrido em 07 de agosto de 1896. Naquela oportunidade, o administrador do cemitério assim relataria o sepultamento do menino:
N. 4226 – sepultado na quadra geral no. 7 – dos anjos pequenos – sepultura no. 270 – Immigrante - Antonio Poli – Aos 20 dias do mez de Agosto de 1896, sepultouse na quadra geral no. 7 dos Anjos pequenos, sepultura no. 270, o cadaver de Antonio Poli de 10 meses, filho do immigrante italiano: José Poli, falleceu hontem as 4 horas da manhã, fallecido de gastro Enterite. Attestado do Dr. J. Bueno. E o que certificou o Escrivão de Paz desta freguesia João Francisco de P. Carmo. Cemitério do Braz. 20 de Agosto de 1896. iuseppe Antonio Poli também permaneceria de 1891 a 1895 no Brás. Aí, provavelmente, havia se casado. Cinco anos depois da chegada de Schio, vemo-lo enterrar no Cemitério do Brás, uma de suas crianças, de nome Antonio Poli, ocorrido exatamente aos 07 de agosto de 1896. Como se pode observar, a causa mortis diagnosticada foi a gastroenterite, já descrita como doença decorrente especialmente da má qualidade de vida, somada à desnutrição crônica e à falta de higiene. Observa-se também no mesmo registro que o operário de Schio foi classificado como ‘immigrante’. Giuseppe Antonio, não pode sequer pagar a taxa de inumação. Dele, não há mais nenhuma informação. A ausência desta de certa forma corre a favor da tese, por nós defendida, de que esses imigrantes teriam aqui permanecido. Quanto aos POLI(s) que ficaram na Europa, sabe-se que sua irmã, Maria Maddalena, na década seguinte encontrava-se em Wädenswil, na Suíça. Ali, em 5 de novembro de 1901, aos 21 anos, casar-se-ia com outro imigrante italiano, Giovanni Bonin. Quanto ao pai, Giacomo e ao irmão, Giuseppe Baldessan, então com 35 e solteiro, sabe-se que, em 1910, transferiram-se para Vicenza. Algum tempo depois, Giacomo viria a falecer naquela cidade, aos 80 anos. O irmão Cesare Giacomo, por outro lado, buscaria estruturar sua vida e, ainda em 1910, emigraria para Zurique, na Suíça. Como já mencionamos, na orla do lago homônimo surgiram cidades industriais que abrigaram muitos trabalhadores de Schio que para lá foram em busca de trabalho e vida digna.
| |
Comentários
Postar um comentário